Dr Eduardo Adnet


Médico Psiquiatra e Nutrólogo

Síndrome do Pânico, Ansiedade Paroxística, Crise de Pânico

“Era noite e eu estava reclinado sobre o sofá da sala. De repente, comecei a perceber uma sensação apavorante. Era como se eu estivesse morrendo ou como se eu fosse morrer a qualquer momento. Não havia, aparentemente, nada que pudesse justificar aquela sensação de pânico e de terror. Uma sensação de morte, de total perda de controle, que vinha em forma de sucessivas ondas de pavor inexplicável. Eu não tinha absolutamente nenhum controle sobre aquilo, e aquela falta de controle me apavorava ainda mais. Era um medo terrível de algo que eu, simplesmente, não sabia o que era. Comecei, então, a gritar e parecia que não haveria no mundo inteiro uma solução para aquele medo mesclado com terror. Era como se apenas uma única coisa fosse certa: Eu iria morrer.”

Este é o relato de um paciente que foi tomado por uma aguda crise de pânico. Quando pude intervir, estando eu no local, mediquei-o e somente após cerca de uma hora, o paciente adormeceu e a crise desapareceu. Após o tratamento, nunca mais houve nenhuma outra crise semelhante.

O Transtorno do Pânico foi classificado como um transtorno de ansiedade pelo manual de diagnósticos mentais dos norte-americanos, o DSM, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual de Estatística e de Diagnóstico de Transtornos Mentais), da Associação Americana de Psiquiatria e também pela CID, a Classificação Internacional de Doenças, mais utilizada no continente europeu e também no Brasil. Esta síndrome consiste de inexplicáveis crises de grande ansiedade, estresse, medo e pânico que acometem muitas pessoas, a qualquer hora e em qualquer lugar. É também chamada de Síndrome do Pânico ou Transtorno de Ansiedade Paroxística, ou ainda, Ansiedade Paroxística Episódica. Veja a definição da Síndrome do Pânico dada pela CID10:

"A característica essencial deste transtorno são os ataques recorrentes de uma ansiedade grave (ataques de pânico), que não ocorrem exclusivamente numa situação ou em circunstâncias determinadas mas de fato são imprevisíveis. Como em outros transtornos ansiosos, os sintomas essenciais comportam a ocorrência brutal de palpitação e dores torácicas, sensações de asfixia, tonturas e sentimentos de irrealidade (despersonalização ou desrealização). Existe, além disso, freqüentemente um medo secundário de morrer, de perder o autocontrole ou de ficar louco. Não se deve fazer um diagnóstico principal de transtorno de pânico quando o sujeito apresenta um transtorno depressivo no momento da ocorrência de um ataque de pânico, uma vez que os ataques de pânico são provavelmente secundários à depressão neste caso." (CID 10 - Classificação Internacional de Doenças).

Observe que a definição da Síndrome do Pânico dada pela CID 10 diz: "ataques recorrentes de uma ansiedade grave", ou seja, a ansiedade é o ponto fundamental de enfoque na abordagem da Síndrome do Pânico. Em outras palavras, isto significa que a Crise de Pânico é uma manifestação clínica intensa de um surto de ansiedade. Isto dizemos pois de modo geral as pessoas portadoras desta Síndrome já apresentam previamente um componente ansioso em seu quadro clínico. Deduz-se, pois, que todos os indivíduos ansiosos possuem uma predisposição maior a manifestarem esta Síndrome, embora muitas pessoas ansiosas jamais terão Síndrome do Pânico.



Um diagnóstico precipitado pode ter conseqüências desagradáveis, por isso o médico psiquiatra deve ser consultado. Cargas de adrenalina são lançadas na corrente sanguínea sem que haja um perigo aparentemente real, e uma reação de luta e fuga tem lugar podendo levar o indivíduo a um estado de pânico e/ou à uma horrível sensação de morte iminente. Muitas dessas pessoas não conseguem mais sair de casa por temerem que as crises aconteçam no meio da rua, no trabalho, na escola ou na faculdade, uma condição médica psiquiátrica conhecida por agorafobia. O transtorno do pânico pode evoluir com ou sem a presença de agorafobia ou de fobias sociais.

A síndrome do pânico pode chegar a atingir níveis de intensidade tão dramáticos que chegam a incapacitar o indivíduo para o trabalho e para a vida social, e as consequências muitas das vezes podem ser chegar a ser devastadoras. A situação pode se agravar e piorar ainda mais se o isolamento, e não o tratamento psiquiátrico, tiver sido a opção do paciente, voluntária ou involuntariamente. Devido ao isolamento, muitos desses pacientes podem começar a sofrer também em razão de episódios depressivos.

A coexistência de mais de um transtorno psiquiátrico (comorbidade) nos pacientes portadores da Síndrome do Pânico não é infrequente. Podem coexistir no mesmo paciente a Ansiedade Generalizada, o Pânico e a Depressão, por exemplo. A presença de mais de um transtorno psiquiátrico coexistindo em um mesmo paciente é um dos precipitadores de um maior sofrimento, e muitas vezes isto o leva a procurar auxílio médico mais rapidamente. O United States Public Health Service (Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos) publicou o resultado de dois estudos denominados de ECA, Epidemiologic Catchment Area e o NCS, National Comorbidity Study mostrando que as fobias, o transtorno de ansiedade generalizada e o transtorno do pânico respondem, juntos, por 36.6 % das taxas de prevalência de transtornos mentais em indivíduos com idades entre os 18 e os 54 anos.

Alguns pacientes, após sucessivos episódios de Estresse (estresse quer dizer "pressão") persistente e de ansiedade, que podem durar semanas ou meses, parecem possuir mais chances de apresentar a sintomatologia compatível com a síndrome do pânico. Na realidade, nos chamados estados mistos, muito frequentes, podem coexistir transtornos ansiosos e transtornos do humor. A Depressão em si pode mesmo vir a ser a causa do início de um quadro de transtorno de pânico, lembrando, todavia, que a síndrome do pânico é classificada como um transtorno de ansiedade, e o transtorno depressivo é classificado como um transtorno do humor nos modelos de diagnóstico psiquiátrico chamados de categoriais, como na da CID (Classificação Internacional de Doenças).

De modo simplificado, a Síndrome do Pânico pode ser entendida como uma situação de grande ansiedade que pode se manifestar na forma de surtos ansiosos de grande intensidade, as crises de pânico. Pode ser desencadeada pelo Estresse, por um estado de fobia, ou simplesmente ocorrer de modo espontâneo, sem uma causa aparente.

Concluindo, podemos definir para o leitor a Síndrome do Pânico como um estado de intensa e lancinante ansiedade que normalmente surge de modo súbito, quando menos se espera, daí o receio que muitos sentem de serem pegos de surpresa na rua, no trabalho, na escola ou mesmo nos momentos de lazer. As palpitações são frequentes, as tremulações, sensações de esquecimento abrupto, de desnorteio e um medo de perda de controle e até um medo da morte são sensações que comumente são relatadas pelos pacientes acometidos por esta síndrome. Os tratamentos bem conduzidos costumam apresentar ótimos resultados. O diagnóstico correto e o tratamento precoce e adequado são armas poderosas a fim de lidarmos com esta doença que a tantos tem atormentado.

Dr Eduardo Adnet

Médico Psiquiatra e Nutrólogo