Dr Eduardo Adnet


Médico Psiquiatra e Nutrólogo

Alcoolismo, Etilismo, Abuso de Álcool

O Alcool não é para todos os Dias

Mesmo após quase três décadas de exercício da Medicina, nunca jamais tinha visto, como hoje vejo, tantos sofrimentos causados diretamente pelo Etanol, também chamado de álcool etílico, e isto de modo escandalosamente crescente.


Não me preocuparei aqui em definir o que seja esta substância, tal a enormidade de fontes de pesquisa existentes sobre este composto orgânico. Mas me deterei, brevemente, sobre os prejuízos que tenho observado em muitos dos meus pacientes. Prejuízos esses causados pelo excesso de vinho, de cervejinhas, de vodka, de cachaça, de whisky, e mesmo pelo excesso das sofisticadas e muito caras bebidas conhecidas como champagnes. A associação de vinhos caros e de champagnes com sofisticação e bom gosto parece ser imediata, mas, ressalte-se, há muita dor, perdas e muito sofrimento seguindo esses tão charmosos rótulos de sofisticação.


Tampouco aqui levanto uma bandeira contra o consumo de bebidas alcoólicas, pois já há quem o faça. Minha única preocupação é a de alertar, pois sou um médico, e médico psiquiatra. Penso ser este o meu dever profissional. Psiquiatras tratam de loucos sim! Mas a Psiquiatria vai muito, mas muito além disso, passando, inclusive e necessariamente, pela promoção da saúde mental.

Recentemente, atendi um paciente que havia mergulhado (e soçobrado) no etilismo. Bebia todos os dias e persistentemente se angustiava. Sua aparência estava envelhecida, abatida e triste. Um homem enorme, com cerca de 1,98 de altura e com aproximadamente uns 160 quilos. Simpático, amável, porém triste, profundamente triste e, por poucas vezes, consideravelmente irritável. Mas sempre cooperativo e cordial.

Mesmo sem ainda saber o que tanto o angustiava (ele tinha muita dificuldade em falar sobre seus sofrimentos), nos entrelaçamos em uma excelente relação médico-paciente e isto em grande parte devido à sua notável simpatia e amabilidade. A coleta de informações pertinentes não foi fácil (anamnese), mas persistimos, tanto eu como ele, na busca da melhor compreensão possível sobre o que tanto o atormentava e sobre o porquê do seu envolvimento com o etilismo.

Particularmente, sou um psiquiatra que busca sempre soluções rápidas a fim de, o quanto antes, aliviar os sofrimentos psíquicos e afetivos dos meus pacientes. Não sou simpático para com tratamentos que demorem muitas semanas, meses, e menos ainda anos, uma excepcionalidade em meu trabalho, assim acredito eu. Valho-me de um dos lemas áureos da Medicina:

 

“Curar se possível, mas aliviar, sempre!”

 

E o mais rapidamente possível. Dentro do que é tecnicamente possível, evidentemente.

Mas enfim, o momento surgiu e este mui querido paciente começou a se abrir para o seu médico, fornecendo desta forma as informações mínimas (pelo menos) a fim de que eu pudesse lhe ajudar no território da Psiquiatria, minha especialidade médica (junto com a Nutrologia).

Triste e lamentavelmente, este paciente (quando começou seu tratamento, um homem na faixa de 50 anos), havia sido abusado sexualmente por um indivíduo de sua vizinhança (quando o paciente tinha apenas 15 anos de idade). Com muita dificuldade, relatou os terríveis e horrendos momentos que passou. Relatou, com minúcias, o comportamento do seu covarde abusador (ou molestador) sexual.

Molestadores são, frequentemente, indivíduos cuja sexualidade se encontra seriamente enferma, e seus objetivos são a busca da satisfação sexual, a todo custo, de modo obsessivo e compulsivo, e ainda com absolutamente nenhuma preocupação com as consequências físicas, psíquicas e/ou afetivas que suas ações possam vir a provocar em seus objetos de desejo sexual, não infrequentemente adolescentes ou mesmo crianças. E foi de um indivíduo assim que este meu paciente foi vítima quando ainda era um adolescente (tudo bem documentado, sendo impraticável aqui a publicação de seu relato em razão do sigilo médico).

"Os abusadores sexuais de meninos tendem a ser homens do sexo masculino, conhecidos de suas vítimas, mas sem estarem necessariamente envolvidos em qualquer relação direta com elas. Estes molestadores tendem a cometer o ato do abuso sexual fora de casa, repetir o abuso, o qual tende a envolver algum grau de penetração." (Prevent Child Abuse America).¹

Parece-me aqui desnecessário mencionar a horrível e angustiante sensação de impotência dolorosamente experimentada e vivida por um adolescente de apenas 15 anos de idade diante de um adulto maduro e sexualmente viciado que o manipulava e que dele abusava de modo tão covarde.

O equívoco deste meu paciente foi, já adulto, o de buscar o álcool para aliviar suas dores, pois me relatou que andava pelas ruas, mesmo após muitos anos terem se passado, buscando encontrar o tal molestador. Seus sentimentos eram sentimentos de muito sofrimento psíquico e afetivo e eram também evidentes sentimentos de um forte rancor. Quando me procurou, e como já mencionei, um homem corpulento, muito alto, notavelmente musculoso, e que, seguramente, hoje poderia se defender de modo mais do que satisfatório de qualquer molestador sexual (e pobre do abusador que se defrontasse com um homem dessa envergadura, com segundas intenções! Mas à época em que foi molestado, tinha somente 15 anos quando sofreu o abuso sexual e o estresse precoce. Que terrível e abominável covardia!). De qualquer modo, o álcool jamais deveria ter sido o seu "refúgio".

Este é apenas um dentre muitos exemplos que poderia agora aqui citar com a finalidade de alertar que a busca de alívio para sofrimentos psíquicos, afetivos, para frustrações, perdas, baixa auto-estima, problemas financeiros, familiares, ou de qualquer outra ordem, não passa de uma como que tentativa de apagar o fogo com gasolina (embora pudéssemos aqui dizer: apagar o fogo com álcool, pois em ambas as situações, o inevitável ocorreria).

Hoje, somos massacrados pelas propagandas de bebidas alcoólicas como nunca antes. Por todos os lugares por onde se vá, lá há alguma alusão a beber, e junto com a alusão ao ato de beber, não infrequentemente também encontramos uma falsa e embusteira associação entre álcool e sucesso, entre álcool e conquistas sexuais, financeiras, de status, e de outras ordens. Repito o que acabei de escrever: Associações embusteiras, pois o abuso do álcool é um dos maiores obstáculos ao sucesso profissional, à boa administração, ao desempenho no trabalho, à percepção e ao desenvolvimento da auto-estima, à harmonia familiar, ao desfrutar a vida, enfim, o álcool etílico tem regado muito mais desgraças do que satisfações.

Por outro lado, culpar a indústria de bebidas alcoólicas por tudo o que pode haver de ruim no que tange ao consumo de bebidas alcoólicas não passa de uma polarização demasiado simplista e exagerada. As pessoas tendem, com muita frequência, a buscar em outros a razão para os seus insucessos e falta de responsabilidades. Cada um tem responsabilidade sobre si próprio e opta por este ou por aquele comportamento segundo melhor lhe parecer. Mas se optou mal, as consequências serão inevitáveis. Nesta vida, tudo tem consequências.

 


Um pouco de Álcool todos os dias pode fazer bem à Saúde. Será mesmo?

Com plena satisfação, e em outra hora, poderei me ocupar em desfazer esse mito pseudocientífico de nossos dias. Mas, por hora, me limitarei a afirmar que essa estória de que um pouco de álcool todos os dias faz bem à saúde já foi levada em séria consideração por autoridades em saúde européias, as quais fizeram divulgar por unidades de saúde de países europeus material impresso alertando a profissionais de saúde e a pacientes de que se trata de um mito, e um mito que já arrastou milhões de europeus ao etilismo crônico. E bem sei disso porque eu mesmo, quando trabalhei como médico em território europeu, por cerca de três anos, recebia essas publicações, e eu as lia e examinava. E também as divulgava.

Aqui cabe uma ressalva importante a fim de que se possa melhor compreender este assunto. O vinho de séculos passados, por exemplo, continha uma quantidade de álcool sobremaneira inferior ao vinho que hoje é produzido. Tratava-se do vinho pisado em lagares, artesanalmente preparado e com uma proporção de álcool para 100 ml de bebida, muito inferior ao que hoje se vê.

Já no século dezenove, um químico e físico francês, chamado de Louis Joseph Gay-Lussac, desenvolveu um método para verificar e medir o volume de teor alcoólico das bebidas. Por isso, graças ao doutor Gay-Lussac, até hoje vemos a quantidade de álcool nas bebidas em sua unidade de medição, o °GL (a unidade de medição Gay-Lussac). Assim, uma bebida alcoólica cujo rótulo contenha 14°GL, isto é uma referência à quantidade de álcool presente naquela bebida. A unidade de medição Gay-Lussac (°GL) passou a ser popularmente conhecida como teor alcoólico das bebidas. Isto equivale à quantidade de álcool por volume da bebida². Vamos a alguns exemplos:

-Cerveja alemã: de 0,5 a 5,0 °GL (média)
-Whisky: 39 a 40 °GL (média)
-Conhaque: 38,3 °GL (média)
-Vodka: 45 °GL (média)
-Vinhos: 12 a 14 °GL (média)

Antigamente, os bons vinhos podiam conter somente 5°GL, por exemplo, ao passo que hoje em dia, dificilmente se encontra um bom vinho (os chamados vinhos DOC – Denominação de Origem Controlada, ou VPQRD - Vins de qualité produits dans des régions déterminées - Vinhos de Qualidade Produzidos em Região Determinada/ou demarcada) com um teor alcoólico inferior a 14°GL.

Quando morei na Alemanha, via cervejas com teor alcoólico de 1,5 °GL, diferente das cervejas de outros países com 6.5, 8.5°GL, o que pode ajudar a explicar porque alemães e outros povos facilmente se embriagam quando chegam ao Brasil, cujo teor alcoólico presente nas cervejas é, em média, muito mais elevado do que o teor alcoólico historicamente presente em cervejas alemãs tradicionais.

Examine sempre o teor alcoólico das bebidas que você vá consumir. Isto certamente poderá lhe poupar muitos problemas. Penso que o já bem conhecido “Beba com Moderação”, carece de informações adicionais. Pois beba o que, exatamente, com moderação? Beber com moderação uma bebida com um teor alcoólico de 6,5°GL, de 12°GL, ou de 40°GL?

Bebidas alcoólicas podem ser utilizadas em celebrações, em festas, em ocasiões especiais, mas jamais recomendamos que sejam utilizadas todos os dias. Os malefícios podem ser muitos. E ainda que você conheça o teor alcoólico do que está bebendo, estou certo de estar cientifica e epidemiologicamente mais do que bem suprido para afirmar que:

O Álcool não é uma bebida para todos os dias!

Referências:
¹ - Prevent Child Abuse America
- Holmes, W. C. & Slap, G.B. “Sexual Abuse of Boys: Definition, Prevalence, Sequelae, and Management”.
²- World Health Organization; Types of Alcohol and Alcoholic Beverages
- Australian Government/Department of Health and Ageing; The Australian Standard Drink
- Centers for Disease Control and Prevention; Alcohol and Public Health

 

Dr Eduardo Adnet

Médico Psiquiatra e Nutrólogo